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terça-feira, 24 de setembro de 2013

O COMBATE DO CANHÃO - Por Victor Hugo


O COMBATE DO CANHÃO 
Por Victor Hugo
               Boisberthelot não teve tempo de responder a La Vienville, porque, antes de acabar de falar, foi bruscamente interrompido por um grito de desespero. Ao mesmo tempo ouviu-se um ruido diferente de todos os ruídos costumados; aquele grito e aquele ruido vinham do interior do navio. O capitão e o tenente precipitaram-se para a entre-ponte, mas não puderam lá chegar porque todos os artilheiros subiam, assustados.  Um dos canhões da bateria, uma peça de vinte e quatro, desprendera-se das amarraduras. É este, sem duvida nenhuma, o mais terrível acontecimento que se pode dar no mar; nada mais horrível pode suceder num navio de guerra, quando em marcha no alto mar. 
                O canhão que quebra as suas amarras, transforma-se bruscamente numa espécie de fera sobrenatural; é uma máquina que se torna monstro; é uma massa que se agita sobre as suas rodas, que tem movimento de bola de bilhar, que se inclina ao transportar-se d'um lado para o outro, que se encava quando choca, que vai, vem, se demora, parece que pensa, recomeça a correr, atravessa como uma flecha o navio d'um extremo ao outro, salta, foge, empina-se, bate, destroça, mata, extermina.  É um ariete que bate por sua vontade na muralha, com a diferença que este ariete é de ferro e a muralha de madeira. É a matéria que se liberta; e parece que esse escravo eterno quer vingar-se; parece que a malícia dos que chamamos objetos inertes, se revolta e rebenta de súbito; parece que perde a paciência e tira a sua desforra. É poderosa a cólera do inanimado. Esse pedaço de ferro forjado dá saltos de pantera, tem o peso do elefante, a agilidade do rato, a dureza do machado, o inesperado das ondas, a velocidade do raio e o silêncio do sepulcro. O seu peso é enorme e salta como uma bola ou torce bruscamente, cortando em ângulo reto a linha que acaba de traçar. Que se há de fazer? Como se pode educar esse monstro? A tempestade acaba, o ciclone passa, o vento acalma-se, o mastro quebrado pode substituir-se, tapa-se o rombo por onde entra água, o incêndio apaga-se; mas que fazer  com essa enorme fera de bronze? De que meios lançar mão? Pode-se ensinar um cão de fila  espantar um touro, matar um tigre, fascinar uma bola, enternecer um leão, mas não há meio algum de subjugar esse monstro que se chama canhão desamarrado. Não se pode matar porque está morto; no entanto, vive uma vida sinistra que faz com que destrua tudo. Tem por baixo de si o chão do navio que balança e que faz mover-se, e o mar faz mover o navio e o vento faz mover o mar. Esse instrumento de destruição e de morte não é mais do que um joguete do navio, das ondas e dos ventos;de tudo isso junto, nasce a sua vida pavorosa. Como se pode alguém livrar-se de semelhante máquina? Como manobrar aquele monstruoso maquinismo de naufrágio? Como adivinhar cada um dos seus golpes que podem afundar o navio? Como evitar um projétil que varia de direção, que se move, avança, recua, fere para a direita e para a esquerda, corre, passa, desconcerta a previsão, atropela os obstáculos e mutila os homens? O aterrador de tal situação depende da mobilidade do solo; não é possível combater um plano inclinado que tem caprichos. O navio tem, por assim dizer, dentro de si, prisioneiro, o raio que tenta evadir-se; uma espécie de trovão sobre um tremor de terra. 
                Nim instante pôs-se em movimento a tripulação inteira; a falta fora cometida pelo cabo que se esquecera de encravar a corrente da amarra e atou mal as quatro rodas do canhão. Uma pancada na porta da bateria fizera com que o canhão, mal amarrado, recusasse, quebrasse a cadeia, começando a rodar d'um modo formidável pela entre ponte. No instante em que rebentara a amarra, os artilheiros estavam na bateria, em grupos ou separados, ocupados nos trabalhos do mar que os marinheiros efetuam na previsão do desempacho de combate. O canhão, atirado pelo balanço do navio, foi logo contra um dos grupos e esmagou quatro homens; depois, outro balanço levou-o para o outro lado, onde cortou ao meio outro infeliz e, indo contra uma peça na amurada de bombordo, destroçou-a. Isto produziu a exclamação de angústia que acabamos de ouvir. Toda a tripulação correu para a escada, e, num momento, a bateria ficou deserta. 
                A enorme peça encontrou-se só, entregue a si mesma, podendo fazer  o que quisesse. Era dona do navio. A tripulação, costumada a rir durante as batalhas; tremia cheia de medo. 
                O capitão Boisberthelot, e o tenente La Vienville, que eram dois valentes, pararam no alto da escada, e, mudos, pálidos, hesitantes, olhavam para a entre-ponte. Um homem separou-se com o cotovelo e desceu; era o passageiro, o paisano de que estavam falando momentos antes.  Chegando ao fim da escada, parou. 
                O canhão ia e vinha pela entre ponte, como se fosse o carro vivo do Apocalipse; a lanterna oscilando sob a roda da bateria acrescentava a esta visão uma vertiginosa alternativa de sombra e de luz.  A forma do canhão desaparecia na violência da carreira e ora aparecia negro na claridade, ora com vagos reflexos brancos nas trevas. 
                Continuava causando estragos no navio; já destruíra mais de quatro peças e abrira nos costados do barco duas brechas que por fortuna se encontravam acima da linha de flutuação, mas pelas quais entraria água apenas sobreviesse um temporal. Abordava com frenesi contra os costados do navio; a madeira resistia, mas aquela massa enorme fazia-a ranger, batendo-lhe com uma espécie de ubiquidade insuportável, em toda a parte ao mesmo tempo. Um grão de chumbo agitado numa garrafa não produz uma percussão tão incessante e tão rápida. As quatro rodas passavam e tornavam a passar sobre os cinco homens mortos, esborrachavam-nos, cortavam-nos, despedaçavam-nos, e dos cinco cadáveres tinham feito vinte e cinco pedaços que rolavam pela bateria, e rios de sangue corriam pelo chão. Os costados avariados do navio entreabriam-se já em certos pontos, e em todo o barco reinava um pavor indescritível. 
                 O capitão, tendo recuperado a serenidade, mandou lançar à entre-ponte tudo que pudesse amortecer e evitar a correria desenfreada do canhão; os canhões, as redes, velames, rolos de cabos, os sacos da equipagem e pacotes de papel moeda falsificada de que o navio levava um carregamento, porque essa infâmia inglesa era considerada um ardil de guerra. 
                 Esses trapos de nada serviam porque ninguém se atreveu a descer para os dispor convenientemente; em poucos minuto ficaram reduzidos a estilhas. 
                 O mar estava como devia estar para que este desgraçado acidente fosse o mais completo possível. Se houvesse uma tempestade, talvez o canhão fosse derrubado, votado e, de rodas para o ar, poder-se-hia evitar aquele perigo. Mas não sucedeu assim e o estrago continuava; viam-se rombos e fraturas nos mastros, que, embebidos na madeira da quilha, atravessavam os diferentes andares do navio e desempenhavam o papel de pilares. As pancadas convulsivas do canhão tinham rachado o mastro do traquete; o mastro grande sofrera já bastante; a bateria desconjuntava-se. De trinta peças, dez estavam fora de combate; as brechas aumentavam e o navio começava a meter água. 
                O velho passageiro que descera à entre-ponte parecia um homem de pedra colocado no fim da escada; olhava com tranquilidade aquela cena de devastação; estava imóvel. 
                Cada movimento do canhão fazia agora prever o afundamento do navio; se aqueles estragos continuassem. o naufrágio era inevitável; era preciso, ou conter o desastre, ou morrer; tomar uma determinação, mas qual? Com haviam de apoderar-se daquele combatente? Tratava-se de segurar um doido furioso, de prender um raio, de derrubar um monstro. 
                Todos se calavam presenciando o perigo. Do lado de fora as vagas batiam o navio, respondendo às pancadas do canhão com o quebrar do mar, produzindo o efeito de dois martelos alternados. 
                De repente aquela espécie de circo inabordável, onde saltava o canhão, viu-se aparecer um homem com uma barra de ferro na mão. Era o autor da catástrofe, o culpado do abandono e causa do acidente, o cabo encarregado de vigiar os canhões. Tinha causado o mal e queria remediá-lo; leva uma barra de ferro numa das mãos e, na outa, uma corda com nó corrediço. Assim armado entrou na entre-ponte. 
                Começou então um espetáculo titânico e feroz; o combate do canhão contra o artilheiro; a luta entre a matéria e a inteligência; o duelo do objeto inanimado contra o homem. 
                O homem colocou-se num ângulo, com a barra e a corda nas mãos, imóvel sobre as pernas que pareciam dois pilares de aço e, lívido,tranquilo e trágico, esperava, como se estivesse enraizado no solo. Esperava que o canhão passasse perto dele. O artilheiro conhecia o seu canhão e confiava em que este o conhecesse também, tendo vivido com ele tanto tempo; metera-lhe muitas vezes as mãos na boca; era um monstro familiar; e começou a falar-lhe como um cão. 
               "Vem cá", dizia ele. 
                Desejava que o canhão viesse ter com com ele, mas isso era a perdição; porque, como evitaria que a fera o esmagasse? Todos os homens do navio admiravam, aterrados, aquele espetáculo; ninguém respirava à vontade, a não ser o velho que estava na entre-ponte como sinistra testemunha daquele combate, e ao alcance da peça de artilharia que podia triturá-lo d'um instante para o outro. No entanto não se mexia. Por debaixo daqueles homens as ondas movediças dirigiam o combate. 
               No momento em que, aceitando o espantoso desafio, veio o artilheiro provocar o canhão, um acaso no  balanço do mar fez com que o canhão ficasse um instante parado e como estupefato. "Vem aqui!", dizia-lhe o homem; e ele parecia entender. De repente, caiu sobre o artilheiro que esquivou a pancada. E principiou a luta inaudita do frágil atacando o invulnerável, do combatente de carne atacando a fera de bronze; a força está da parte desta, a inteligência da parte do outro. Sucedia isso na penumbra; era como a visão confusa d'um prodígio. 
                Parecia que o canhão também tinha alma; porém uma alma cheia de rancor e de raiva; parecia estar dotado de vista aquele monstro que acossava o homem; acreditava-se que havia uma certa astúcia naquela massa, porque escolhia os seus momentos de ataque; era qualquer coisa como um gigantesco inseto de ferro que parecia ter uma vontade diabólica. Havia momentos em que aquela lagosto colossal saltava ao teto baixo da bateria e depois caia sobre as suas quatro rodas como um tigre sobre as suas quatro patas, e logo corria direto ao homem; este, flexível  ágil e esperto, torcia-se como uma cobra, esquivando-se aos movimentos daquele raio; evitava os choques, mas as pancadas a que fugia recebia-as o navio, que continuava a demolir-se. 
                Apesar de tudo, o homem continuava a lutar, e algumas vezes chegava a atacar o canhão, arrastando-se ao longo do costado do navio com a barra de ferro e a corda nas mãos, e o canhão retirava-se, como se percebesse que o artilheiro fazia aqueles movimentos para lhe armar um laço. Então este perseguia-o. 
                O canhão parecia dotado de feroz premeditação. Subitamente precipitou-se sobre o artilheiro, mas este deixou-o passar, furtando-se mais uma vez e gritando-lhe a sorrir: "Vá lá a ver outra vez!"  O canhão, furioso, quebrou uma peça de bombordo.  Depois lançou-se a estibordo sobre o homem, que novamente lhe fugiu. Quebrou mais três peças. O canhão, cego e não sabendo já o que fazia, virou as costas ao artilheiro, rodou de traz para diante e foi abrir uma brecha no muro da proa. 
                O homem refugiara-se ao pé da escada, a poucos passos do velho, tendo sempre nas mãos a barra de ferro e a corda. O canhão parecia vê-lo e, sem dar ao trabalho de se virar, recuou sobre o homem com a rapidez de uma machadada. A tripulação pensou que o homem estava perdido, e soltou um grito. O velho, até então imóvel, atirou-se com rapidez selvagem sobre um pacote de papel moeda, e correndo perigo iminente de ser esmagado, conseguiu lançar-se sobre as rodas do canhão; este movimento arriscado e decisivo foi executado com tal certeza e precisão como se aquele homem fosse bem conhecedor de todos os exercícios escritos na obra de Dorosel sobre a  manobra do canhão de marinha. 
                 O pacote fez o efeito d'uma bucha. Um calhau faz parar uma roda, um ramo de árvore separa uma avalanche. 
                 O canhão tropeçou; o artilheiro, aproveitando aquela terrível conjuntura, meteu a barra de ferro entre os raios d'uma das rodas traseiras e o canhão parou. 
                 Estava inclinado, e o homem, com o movimento de alavanca que imprimiu à barra, derrubou-o; a pesada massa caiu com o ruído d'um sino tombado, e o homem, deitando-se sobre ele coberto de suor, passou o nó corrediço pelo pescoço de bronze do monstro, estendido no chão. Assim finalizou o combate, ficando vencedor o homem. A formiga triunfou do mastodonte. 
                 Os soldados e os marinheiros plaudiram; a tripulação precipitou-se sobre o canhão, munida de cabos e correntes, e em um momento o amarraram à amurada. 
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BREVES COMENTÁRIOS
Victor Hugo, admirado como um dos maiores poetas da França, é também celebre como dramaturgo e conhecido no mundo inteiro pelos seus romances.  No entanto, pode-se dizer que os seus romances e contos pertencem também à poesia, por ser neles tão exuberante a imaginação que transporta o pensamento para fora das realidades da vida, elevando-se ao domínio da fantasia. Victor Hugo é portanto um grande poeta, mesmo quando escreve uma prosa, pois os seus romances encerram sempre uma grandeza verdadeiramente poética. O seu célebre romance "Noventa e três" é uma narrativa dramática na qual se descreve o ano terrível de 1793, quando a Revolução Francesa chegou ao auge do seu furor. Nenhum outro autor traduziu tão bem a agitação daquele período; e ao ler o "Noventa e três", chega-se a acreditar que o autor viveu naquele tempo, de maneira tão viva ele o pinta. A seguinte descrição de uma peça de artilharia que se desamarra na bateria d'um navio de guerra, é extraída desse famoso romance. 
Nicéas Romeo Zanchett - Pesquisador 
    

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